segunda-feira, 19 de novembro de 2007

encontro.

Com verdadeiro terror ela se debateu em sua cama,

repleta de líquidos, cheiros, restos.

O suor escorrendo o vinho de ontem,

desfeito o ventre, a carne, a alma, nada mais como antes.

O calor espremendo entre lençóis e paredes brancas,

Antes tão puras, agora cheias de lascívia e volúpia.

Cruel o desespero do engano, a descontrariedade do desejo.


A ponte do beijo - o rio do desapego.

Cabelos perdidos queimando a pele a cada toque,

A luxúria extravansando verdadeiros sentimentos.


Chega o toque puro de alguém de sempre,

As paredes caem e o dia entra,

Na ternura suave de alguma certeza.


Eram choros e desconsolos,

Fim do engano,

Seriedade do encontro.



Odeio essa certeza dos vivos, essa estranha convicção de que há lá uma razão. Odeio pensar nesse concreto me armando, me tragando, trazendo pés para meus divinos vôos. Se há razão, é por que tudo vibra, seres de pequenas moléculas em constante movimento. Odeio a exatidão desses passos, a certeza desses beijos, a incoerência desses abraços. São crueis, de fato, os sentimentos, mais crueis são os desejos, estes inconscientes desbravadores de espaços - entre homens, entre deuses, entre nós.

domingo, 18 de novembro de 2007

é sempre bom estar em casa.

Não. E foi com esse simples "não" latejando a minha cabeça que tudo começou. Sim. Eu era assim, como criança, brincando com as folhas sentadas no chão. Ele. Sentou-se ao meu lado como um velho conhecido, não me perguntou nada, não me olhou um só instante, ao meu lado, brincando com minhas folhas e minha mão. Dele. O que ele fazia ali era tão próprio, tão único, brinquedo antigo, carrilho de folhas velhas sendo a passagem de um longo trem que vinha das nossas imagens, trazendo seus sons dos nossos lábios. Apito. Minha pequena vila rupreste era agora nosso paraíso e eu não me importei mais que seus dedos tocassem. Meus. Ali pensei nos desejos mais extensos, a vida em flash ia retornando e desaparecendo, sempre, e eu fui pensando com carinho que o resto nem resto era, o importante estava ali: folhas. trem. dedos. nós. pesados. abandonados. alojados. folhas. dedos. apito. mãos. terra. casa. casa. casa. casa. casa. casa. casa. casa.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

É de flor desmanchada que escrevo essa carta, é para constatar o meu não-amor e a minha devassidão. Acordei injuriada com o tamanho do mundo para o pequeno e estreito laço que une duas pessoas, é frágil e amargo, é como um corte no pé, desses que já não se dá conta do tamanho, mas sente-se como se fosse uma atmosfera. É com isso que quero e tenho saudade, por que é de sal refinado o nosso elo, não é doce nem simples, é esturricado, e precisa de moderação, cuidado, tempero forte. Já estava decidida que paixão, saudade, cheiro, lembrança, tudo era só ficção e o nosso encontro era dos mais sérios, de gente grande – mas não – descobri quê menina ainda sou, chorando, agarrada a este monte de coisas suas, vazias, me dizendo de você, que foi longe e deixou o peito aqui murcho, calado e triste como uma criança sem mãe.

É de carinho a minha procura cega por rastros e saídas de me contentar, é de tempo, tanto tempo que minha pele toda se inflama, é de ausência que meu estômago reclama, é de amor que tudo vibra. A música, as coisas clássicas e clichês de namorados – ou apenas esses nós que se amam – o cobertor favorito, a caneca, aquele vinho, o nosso filme, o seu livro, a minha rede e nós dois, que pensávamos que tudo isso não era nada. E por isso obrigada, pela enorme ausência que se tornou intolerável e me fez concluir que a presença é incondicional. Três pontos e uma pausa.

A verdade é que escrevo por que você está longe e é alguma coisa como meu dever te dar notícias, e a principal é mesmo essa – não se assuste – mas descobri qualquer coisa parecida com um “te amo”.

domingo, 4 de novembro de 2007

Se sou calma não é por falta de avisos ou de flagrantes, é só por que me aquieto na sensação de sentir que sou bem viva, bem amarga-amada-sofrida. Assim somos nós, que não desatam a qualquer palavra. Você me fere e eu sangro na ingenuidade de te acreditar ditador do meu destino. Você me chama querida, e depois me diz menina. Por que a minha alegria não se constrói nesses desencantos. Sou esta pequena menina que se perdeu no vestido grande demais da mulher. Sou uma grande rasteira em mim mesma, uma poesia maior que me deu na telha. Tenho vontades e desejos infinitos, queria poder esbravejar e derramar meus sentidos no mundo. Mas sou pequena, como cada um de nós também o é. Não tenho poses, não sou rainha, sou eu apenas aqui de braços abertos. Eu te digo: a calma dos meus sentidos só não é maior do que o caldeira que é meu coração, borbulhando a sua presença dentro de mim, como em uma lembrança que não tarda e que não cessa. Eu te explodo em mim constantemente, por que sou feita dos seus pedaços, cabelos, lábios, traços, sou um pouco feita de você, e transpiro amargamente toda a raiva e o amor que você me causa. Queria saber te odiar mais para me fazer perseverança – menos mulher-menina – e aprender a me amar melhor, mim – sem ti.

mantra.

Uma vez só acreditei que era possível fazer algo maior.
Cortar os pulsos, beber demais, amar em doses intermináveis.
É com o tempo que se percebe que o mal do mundo não é na gente,
mas nos olhos dos outros.
E com tantos olhares me julgando,
meu coração se esfriou:
água rasa para pratos fundos.

As fantasias que eu guardava, a esperança de um sonho ninado,
coisas tantas de um mundo de Alice,
já são passado, passado,
como passa o algo que vivo neste instante.
E é assim que a vida corre:
amarga, sem esperar por ninguém,
repleta de deuses que me olham e me alteram.


Cortar os pulsos, beber demais, amar demais.
Cortar os pulsos, beber demais, amar demais.
Cortar os pulsos, beber demais, amar demais.

Cortar os pulsos, beber demais, amar demais.

Cortar os pulsos, beber demais, amar demais.
Cortar os pulsos, beber demais, amar demais.

Cortar os pulsos, beber demais, amar demais.
Cortar os pulsos, beber demais, amar demais.

Do belo e da vida.

Quando a beleza chega,

Ela vem de mansinho,

E tão devastadora que só o amor.

Um beija-flor que exerce bem-querer

Na minha laranjeira,

Cheia de encantos no seu pudor;

Um bem-te-vi descabelado,

Amerilinho como as listras do meu jabuti,

Colhe cheiros e poesias

Da janela do quarto em que me dormi.

Uma rosa só e desvairada,

Repousando no meu lençol de cetim azul,

Nem compreende, ela, que maluquices

Ali rolaram ao som de um blues.

Tanta coisa feita de detalhes

E de pura e só beleza,

Que no fim do dia,

Como uma lágrima rasteira,

Sobra-me a companheira:

A humilde e melancólica tristeza.

Por que são assim mesmo

As coisas do amor e do belo,

A nada pertencem e a nada vieram.

Passam zunindo pelas frestas da vida,

E aí, sem cortejos nem despedidas,

Voltam, calmas, aos seus mistérios.